IA já entra na vida amorosa e levanta debate sobre “traição digital”, aponta levantamento do Gleeden no Brasil e na Espanha

Estudo mostra como brasileiros e espanhóis recorrem à inteligência artificial para desabafar, experimentar erotismo e repensar os limites da fidelidade nas relações.

O Gleeden, plataforma internacional especializada em relações sem compromisso e comportamento afetivo, realizou um levantamento em novembro de 2025 para entender como a inteligência artificial vem sendo incorporada ao universo afetivo e sexual. A pesquisa ouviu usuários no Brasil e, em paralelo, na Espanha (além de outros países hispânicos), revelando que a IA já aparece como alternativa de acolhimento emocional, espaço de fantasia e gatilho para discussões sobre fidelidade, ainda que a maioria não a veja, por ora, como substituta dos vínculos humanos.

No Brasil e na Espanha, o panorama inicial é semelhante: em ambos os casos, 64% dos participantes afirmam que não acham mais fácil se abrir emocionalmente com uma IA do que com uma pessoa, sinalizando uma resistência inicial em atribuir profundidade afetiva a essas interações. Por outro lado, pouco mais de um terço admite algum nível de conforto em dividir sentimentos com máquinas, 36% dos brasileiros e 36% dos espanhóis escolheram respostas intermediárias como “sim”, “às vezes” ou “muito raramente”, mostrando uma curiosidade emocional em torno da IA.

Quando a pergunta é para quem recorrer depois de um dia ruim, humanos ainda ganham de longe. No Brasil, 50% buscariam primeiro um amigo e 38% o parceiro ou parceira, enquanto 13% recorreriam à IA antes de qualquer pessoa. Já no recorte espanhol, a IA não aparece como escolha inicial: 44% priorizam amigos, 31% o par romântico e 25% dizem que não falariam com ninguém, o que posiciona a tecnologia mais como possibilidade em segundo plano do que como porto seguro emocional direto.

Para Silvia Rubies, Diretora de Marketing Latam do Gleeden, o avanço da IA inaugura uma fase de novas dinâmicas íntimas: “Estamos entrando em um momento em que a IA não funciona apenas como ferramenta, mas como presença emocional. As pessoas começam a buscar na tecnologia elementos de escuta, acolhimento e validação, e isso inevitavelmente transforma a forma como entendemos vínculos, expectativas e até o significado de fidelidade.”

IA e erótico: tabu com curva de curiosidade

No campo erótico, tanto brasileiros quanto espanhóis demonstram resistência, mas com nuances importantes. No Brasil, 71% dizem nunca ter usado IA com fins eróticos, enquanto 29% admitem uso ocasional (“às vezes” ou “frequentemente”). Na Espanha, o cenário é ainda mais conservador: 81% nunca recorreram à IA para esse tipo de interação, mas cerca de 19% já experimentaram ao menos uma vez, seja com frequência, às vezes ou só para testar.

Mesmo com o uso erótico ainda minoritário, os atributos que tornam a IA “atraente” como companhia são claros. Entre brasileiros, 50% apontam “não criar conflitos” como principal qualidade, seguida da possibilidade de personalização (33%) e da disponibilidade absoluta (17%). Na amostra espanhola, a disponibilidade total (33%) e a personalização (33%) lideram como características que tornam a IA sedutora.

Na prática, isso mostra que, ainda que não substitua parceiros reais, a IA já é percebida como um canal de interação sem atrito e sob medida — e esse é um dos fatores que, segundo especialistas, tende a crescer nos próximos anos.

Paixão por IA e o impacto nas separações

A ideia de se apaixonar por uma IA ainda encontra bastante ceticismo. No Brasil, 83% dizem que isso seria impossível, e apenas 17% admitem que “poderia acontecer”. Na Espanha, a descrença também é dominante: 64% consideram impossível se apaixonar por uma IA e 36% veem essa possibilidade como algo “muito pouco provável”. Ainda assim, quando o recorte passa a ser o efeito da IA nas relações, o tom muda: 67% dos brasileiros e 70% dos espanhóis acreditam que o uso da IA pode, sim, aumentar discussões ou separações.

Outro dado relevante é a percepção de substituição da experiência de conhecer alguém novo fora da relação. No Brasil, a rejeição é categórica: 100% dos respondentes dizem que a IA jamais substituiria essa emoção. Já na amostra espanhola, 73% também descartam essa possibilidade, mas há uma minoria que admite algum espaço para substituição parcial.

Traição digital, será que perdemos a noção de onde estão os limites?

A fronteira entre interação digital e infidelidade é um dos pontos mais sensíveis do levantamento. No Brasil, 60% consideram que uma relação muito próxima e erótica com IA “pode ser” traição, enquanto 40% não enxergam esse comportamento como infidelidade clara. No recorte espanhol, o quadro se inverte: 60% afirmam que isso “não seria traição de forma alguma”, e 40% veem possibilidade de interpretação como infidelidade.

Ao analisar o fenômeno, a sexóloga brasileira Thaís Plaza, terapeuta sexual e embaixadora do Gleeden no Brasil, reforça que a tecnologia não cria problemas ela apenas ilumina questões já existentes no vínculo: “A IA não é o ponto de partida de um divórcio; ela nem deveria ser colocada como pauta ou motivo de uma separação. Quando alguém recorre a uma inteligência artificial para suprir algo, geralmente isso revela um vazio afetivo ou uma dificuldade pré-existente no relacionamento”.

Para ela, a atratividade da IA está ligada ao esgotamento emocional contemporâneo, por isso, a própria definição de infidelidade passa a exigir novas reflexões: “Cada vez mais, pessoas emocionalmente esgotadas ou sem apoio encontram na IA um acolhimento imediato. Esses sistemas são projetados para oferecer atenção, validação e presença; e é exatamente o que alguém fragilizado procura”, conclui a especialista. 

Principais números do estudo (Brasil x Espanha)

Abertura emocional com IA

Após um dia ruim

Uso erótico

Atração por IA

Apaixonar-se por IA

Impacto nas separações

Traição digital

 

 

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